Páginas

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Caso de família- A infância do desespero


Uma História do Vampiro Neculai antes de se tornar o vampiro que é hoje.


Ano: 1920

– Não acredito que você ganhou todas essas bolinhas de gude Vitório. 
– Eu sempre ganho Mathias. Agora tenho mais de 50 bolinhas.
– Você deixou todos os garotos do baixo sem bolinhas. 
– Alguns que estavam me devendo bolinhas me deram em troca pregos grandes assim posso montar minha própria cabana.
– Sua mãe vai ficar orgulhosa.
– As batatas. Esqueci que a minhã mãe pediu para comprar as batatas. Vou na vendinha comprar. Tchau Mathias. 
...
– Mãe! Cheguei! Eu trouxe as batatas. 
– Que bom Vitório. Seu pai adora batatas. agora vá tomar banho pois a sua roupa está toda suja. O que é esse saco. 
– Bolinhas mãe! eu ganhei o tornei de bolinhas de gude do bairro. 
– Você só tem 10 anos e já é campeão. Será um grande homem. Um dia poderá ser presidente.
– Eu quero muito mãe. 
– O telefone está tocando. Pode atender para mim filho.
– Tudo bem mãe!
...
– Alô!
– Hahaha! Onde está sua mãe garoto?
– P-pai! 
– Você já ganhou um sorvete por ter acertado.
– M-minha mãe está fazendo suas batatas.
– Filho...
– Sim p-papai.
– Você quer ter uma cicatriz igual a da sua mãe? 
– N-não... P-por favor pai. Não faz isso.
– Então... Vai logo chamar a sua mãe!
– Mãe! Mãe! 
– Calma filho eu falo com ele. Vai tomar seu banho.
– Alô querido!
– Fazendo as minhas batatas agora? Não vai ficar no ponto certo quando eu chegar. Posso ficar muito zangado. 
– Eu vou acertar dessa vez. Acredite. Eu vou acertar.
– Eu acho que não vai. E aposto que o Vitório só trouxe elas agora. Ficou na rua até tarde. 
– Não! Ele trouxe cedo. Fui eu que estava ocupada com as suas roupas. 
– Está me culpando por sujar as roupas?
– Q-querido. Você bebeu novamente?
– Não fuja do assunto Leonora! Eu vou chegar em uma hora. Se as minhas batatas não estiverem como eu quero. Vamos conversar e acertar nossas diferenças. 
– Armando por favor. 
– Hahaha! Eu estou brincando. Hahaha! Não vou fazer nada Leonora. Hahaha! Eu fui demitido hoje. Briguei com o chefe. Ele acha que eu bebia o tempo todo. Que absurdo. Velho rabugento. Hahaha. Por isso vou mais cedo. Vou chegar às sete da noite. Espero que tudo esteja como eu quero. Entendeu Leonora?
– Vai estar Armando. Tudo vai estar do jeito que quer. Por favor querido. Fique calmo.
– Hahaha! Estou calmo. Hoje eu quero falar muito com você. Foi por sua causa que bebi. Se você fizesse tudo certo eu não precisaria beber. Mas você não faz nada certo! Tenho que ficar te corrigindo o tempo todo. Toda hora Leonora. Eu avisei você. Avisei que isso iria acabar de forma muito trágica. Você e o Vitório me aguardem. Estou indo para casa. Hahaha. 
– Alô!?
– O que foi mãe!
– Filho preste bem atenção. Quero que você vá para a casa da sua avó. 
– Não mãe! Não vou deixar você sozinha. O papai está louco. Ele pode...
– Vitório. Me abrace. Eu não sei o que fazer filho. 
– Eu sei mãe. Sei exatamente o que fazer. Só me ajude mãe. Por favor. 
– O-que vamos fazer? 
– Ele entra pela sala. Você fica no meu quarto. O único meio de ele chegar no meu quarto é passando pela cozinha. Espera...
– O que está fazendo?
– As batatas mãe. Quero que enfie estes pregos que ganhei em todas as batatas. coloque no chão de toda a cozinha. 
– Mas filho. 
– Faz isso mãe! Temos pouco tempo.
– Tudo bem! O que está fazendo Vitório?
– Estou colocando várias bolinhas de gude pelo chão junto com as batatas e os pregos grandes atravessados nela. 
– Isso pode causar um acidente. 
– Vai machucar mãe. Vai doer mais nele do que em mim.
– Pronto! O chão da cozinha está cheio de pregos com batatas e um monte de bolinhas de gude espalhados. Agora faltam duas coisas mãe. 
– O que é filho? Diga rápido. Seu pai chega daqui a pouco. 
– A bebida dele mãe. Pegue a garrafa. traga para o meu quarto. E preciso da vassoura também. 
– Tudo bem. Estou com medo Vitório. 
– Mãe. Depois desse dia ele não vai mais de machucar. 
– Está aqui a bebida dele. Para que vai usar a vassoura?
– Para quebrar a lampada da cozinha e da sala. Assim ele não vai ver o que tem no chão. 
– O carro dele Vitório. Acabou de chegar.
– Vai para o meu quarto mãe. Vou pegar o fósforo.
– Corre filho ele está abrindo a porta da sala!
– Silêncio mãe. 
– Eu cheguei Leonora! Hahaha! Não tem luz? Responde Leonora! Venha aqui agora mesmo! 
– Mãe! Fique aqui e não saia do meu quarto. 
– Hahaha! Vocês querem brincar de esconde esconde? Vem para o papai! Papai vai para a cozinha. Papai va... Argh Ai! Argh! Pow! Ahhhh! Estou ferido! Estou sangrando! Eu cai na cozinha! Meu peito está ferido. Tem pregos! Argh Ajudem-me. Dói muito. Meu joelhos. Estou com pregos! Não consigo andar! 
– Venha mãe. Vamos sair pela janela do quarto e assim saimos para o quintal. Vamos chamar ajuda está bem?
– Sim filho. Seu pai deve estar muito machucado. O que vai fazer com essa garrafa?
– Eu vou dar para o papai. Ele está gritando muito. Isso pode amenizar a dor. 
– Não filho! ele pode te machucar.
– Não vai mãe. Ele está desesperado. Corre pedir ajuda mãe.
– Tudo bem! Fique longe dele Vitório.
– Ficarei...
...
– Dói tudo. Socorro. Estou com pregos em todo o meu corpo. Eu cai em cima deles. Alguém me ajude!
– Estou aqui papai!
– É você Vitório!
– Sim! Eu trouxe a sua bebida!
– Filho! Sua mãe! Tentou me matar. Eu não posso andar.
– A bebida vai fazer você sarar!
– O-que está fazendo filho? Não acenda o fósforo.
– É para te ver melhor. Hahaha Pai! Você está sangrando. 
– Filho, você está colocando o pano de prato dentro da minha garrafa. 
– Aprendi muito pai. Tenho lido bastante. Quero ser alguém pai. Para isso preciso ter paz. 
– Foi cupa da sua mãe! Eu não queria ter um filho, mas ela não se cuidava. Tudo culpa dela. Ela mereceu tudo que aconteceu.
– E agora pai. Você vai receber por tudo que fez.
– Não acenda este pano filho. A garrafa pode explodir. Podemos morrer. 
– Só você vai pai. Só você. 
– Não! Não. Eu amo você filho! Não faça isso. Não jogue a garrafa em mim! Não. Argh! Não Estão queimando. Socorro. Socorro.
...
– Filho! Filho o que aconteceu? A casa está pegando fogo!
– Foi o papai. Ele acendeu o fósforo. Ele estava rindo muito. Acho que enlouqueceu mãe. 
– Sim. Sim. Acho que sim. Um dia você será um herói filho. Vai salvar muita gente.  
– Hahaha! Tenho certeza que sim mamãe. 


Caso de Família: - inicio do desespero. I infância do Desespero. 
Neculai 

Texto:
Adriano Siqueira

Nenhum comentário:

Postar um comentário